ÁRVORE NO PENHASCO


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ÁRVORE NO PENHASCO

por Cláudio El-Jabel

 

Alimenta-nos e nos dá o elemento vital da vida o oxigênio,

Deixa que em seu corpo animais se aninhem assim como em seu corpo o homem teve sua primeira morada,

De suas folhas, cascas e raízes, fazemos remédios para curar nossos males,

Seus frutos são nossa alimentação mais saudável,

Sua sombra nos serve de alívio contra os raios solares,

Ela é um Ser inteligente e conversa apenas com quem tem ouvidos para ouvi-la,

Parece até um conto mágico irreal,

Conversar de fato com um vegetal,

Num belo dia de Sol, lá ia eu com meus pensamentos,

E ao deparar com um belo papagaio, indo de encontro ao mar,

Perguntei-me suspeito o que ia ele fazer lá,

Mar é para peixe, e ele nem gaivota era,

Como então explicar seu voo em tal direção,

Sem ter uma explicação, parei o carro na beira da estrada,

E fui atrás do papagaio que ia voando em revoada,

Entrei por um matagal, que nem árvore tinha,

Caminhei por uns cinquenta metros e dei de cara com um abismo,

Bem alto ele era e nada tinha senão pedras,

E ao fundo a brisa e o mar,

Olhei para um lado e pro outro e avistei bem na beira do penhasco,

Uma velha mangueira, quase sem folhas e retorcida no tronco,

Parecia querer suicidar-se, com seu peso brutal,

Na beira do penhasco a se segurar,

Parei perto de suas raízes e me sentei,

E com pensamentos altos aproveitei para reclamar,

Reclamei da vida, reclamei do trabalho, das pessoas e até do papagaio,

Que em seu voo rasante me tirou a atenção e me fez vir atrás dele,

Entrando no mato e quase caindo no abismo, só para saber o que ele aqui veio fazer,

Quando ouvi uma voz dizendo, hei o que pensa estar fazendo,

Mas uma vez olho para os lados e já um pouco assustado,

Pergunto alto, quem fala, onde esta?

E a árvore responde sou eu, o que pensaste ser?

Bem na verdade pensei até que fosse o papagaio a quem segui até aqui,

A árvore me diz ele é meu velho mensageiro,

Ele voa vê tudo ao longe e me traz as informações,

Afinal não posso andar e nesse ponto do penhasco,

Somente minhas filhas e o mar eu posso fitar,

Eu pergunto árvore você fala?

Não há todos, mas já falei com uma porção de gente e animais,

Estou aqui já faz quase seiscentos anos e estou triste com o meu final,

Pergunto então porque veio nascer aqui na beira do abismo,

Ela me diz que não nasceu ali e sim a uns 50 metros adentro,

Mas foi empurrada por uma máquina, pois havia homens que iriam construir,

E mataram a todas as outras suas amigas, apenas ela conseguiu fugir,

Pergunto como tudo aconteceu e ela começa com uma história longa,

Descreve cada detalhe que viveu e presenciou,

Chama-me a atenção para um detalhe que nenhum historiador pensou,

No tempo de Dom Pedro, foi ela quem o alertou,

Mude seu trajeto, vá por cima, lá não há penhasco,

Realmente a chamada Via Real onde Dom Pedro cavalgou,

Fica a mil metros dali, sobe a serra até chegar a Santos,

E no vai e vem sinuoso, livra-se dos penhascos de Angra e Parati,

Afinal quem em sã consciência poderia cavalgar por ali,

Mas me conte como então tudo aconteceu,

Ela me fala que homens com máquinas começaram a grande via,

Para encurtar o caminho derrubaram tudo que viam,

Ela foi mais prudente, ao perceber a máquina se cravou com as raízes como se fossem seus dentes,

Arrastada para o abismo teve que se conter em comer e equilibrar-se,

E apenas uma de suas raízes pode lhe retirar o sustento,

Pois as outras raízes tiveram que ser enfiadas nas gretas de rocha para se segurar,

Assim deu tempo de suportar a força que lhe aplicaram até que desistissem,

O tempo passou e ela me fala do litoral,

Pede que eu olhe com cuidado e perceba o grande verde adiante,

Orgulhosa diz, lá estão minhas filhas, minhas netas, bisnetas e tataranetas,

Jogava a semente nas águas e pedia a corrente que as levasse para longe,

Hoje vivo sozinha e por mais que peça ao tempo que me derrube,

Ele nada faz, pois nem folhas eu as tenho mais,

Fale um pouco de você o que vem a lhe aborrecer?

Eu digo a vida, as pessoas correm feito loucas,

Muitas vezes não entendo para que tanta pressa,

Perderam a educação, fazem tudo errado e vivem em eterna desunião,

Ela ri do que falo e me diz veja quem me acompanha,

Estes capins parecem loucos, de vez em quando eles se incendeiam,

E pegam fogo, o mesmo chega rápido me procurando e queima meu tronco,

Fico chamuscada, mas já disse a eles, sou dura na queda,

Hoje até tenho sonhos, de tanto ver as águas lá embaixo,

Penso em cair nela e tornar-me peixe, será que é possível?

Agora quem ri sou eu, e digo nada disso,

O máximo que pode ocorrer é seu tronco vir a apodrecer,

Ela pergunta como sei, e eu lhe mostro as fotos de onde já pesquei,

Veja está vendo onde estou sentado aqui na foto?

Isso foi uma árvore, caiu morreu e só não apodreceu, pois o mar a coralizou,

Ela fica surpresa e pergunta como sei de tanta coisa,

Eu digo a ela que estudei sobre o assunto,

E ela me pergunta, tens certeza que és gente?

Eu pergunto o porquê da dúvida,

Ela diz gente não tem sentimento, gente não fala com árvore,

É bem verdade sim, mas árvore também não fala,

Não? Você que pensa, quando eu tinha minhas vizinhas,

Bastava o tempo virar e como uma verdadeira sinfonia,

O vento em nossas folhas vinha tocar,

Muitas vezes tínhamos companhia de gente assim como você,

Alguns vinham para comer nossas filhas, diziam que elas eram doces,

Outros vinham para pegar nossos galhos e esquentar suas comidas,

Houve até um tempo que apanhei feita escrava,

Cortaram-me dois troncos, fizeram uma cruz,

E lá amarraram um companheiro, igual a eles,

Que apanhava e gritava, por um tal Jesus,

Já servi até de poleiro, para avistar outros iguais,

Diziam que eram negros sorrateiros, aos quais hoje não se veem mais,

Pois é a conversa está boa, mas nada tenho a lhe oferecer,

Pois de tão velha que estou, nem mais frutos me saem,

Estou triste e em desgosto, fico só por muito tempo,

Poderia me ajudar nesse meu tormento,

Pergunto como eu poderia arrancá-la de lá se nem máquina a conseguiu tirar,

Ela diz não, apenas me corte, é somente isso que quero,

Não quero secar nessa pedra e cair na água para apodrecer,

Sei que és culto e saberá me cortar com respeito,

Peço apenas um favor e em troca lhe darei eterna companhia,

Pegue uma parte de mim e leve-me com você,

Esculpa nela a sua face, assim estaremos sempre juntos,

E a outra construa um barco e me leve a conhecer o resto do mundo,

Navegue comigo por todo o litoral e não se esqueça de passar pelas minhas filhas,

Elas saberão lhe agradecer, irás experimentar o fruto mais doce,

E será o fruto que jamais irá esquecer, pois será da semente dele,

Que irás plantar em sua casa, e lá nascerá minha filha a mais bela em esplendor,

Onde irás rabiscar seu nome e mantê-lo-á por mais tempo,

Afinal tu és gente humana, de vida tão curta,

Mas sua alma permanecerá em meu tronco como um amigo fiel,

Onde ela não medirá esforços em levá-lo as alturas do Céu.

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Sobre KAMBAMI

Uma metamorfose humana do conhecer e aprender. Simples porém exigente. Bem sobre o autor desse blog, me parece ser um cara legal, gosta de conversar, dar pitacos aqui e acolá. Procuro ser o mais sincero que a vida me permite, adoro amizades, sou tímido acreditem também uma metamorfose ambulante como diria Raul. Adoro cozinhar, mas na escrita sou mesmo comilão, como acento, concordância verbal, minha gramática de fato anda bem mal, mas sou um cara legal. Tenho muito gosto em escrever o que me vem à mente ou o que me chega aos ouvidos e visão, sou um observador nato desde minha aparição. Aqui é um palco de teatro não se engane há muito de quem escreve e muito de fantasia, mas não há bilheteria, então sinta-se a vontade, puxe sua cadeira e sente, estou quase sempre presente, me enrolo muitas vezes nessa de seguir quem me segue, me perco nesse mundo danado de internet. Não sou esnobe, sou pessoa bem simples, gosto da natureza, da boa mesa, do bom papo, não tenho hora, não uso relógio para controlar meu tempo, a muito me deixei ser levado ao vento, ora furioso que me derruba e machuca, ora bondoso que me embala em doçura. Chamo-me Cláudio El-Jabel, também podem me chamar de Kambami ou Kael, adoro distribuir carinho sem intenção outra que não seja da amizade ser bela, ser amiga, ser sincera, entendo que nossa vida é algo muito rápido e nem sempre dá tempo de nos conhecermos melhor, mas essa é minha apresentação, muito prazer, eu não esqueço vocês, já os tenho em meu coração, sejam bem vindo então.
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5 respostas para ÁRVORE NO PENHASCO

  1. dvb-t disse:

    I was recommended this web site by my cousin. I am not sure whether this post is written by him as nobody else know such detailed about my trouble. You are amazing! Thanks!

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    • kambami disse:

      Hello dear reader! These poems are written by Claudio El-Jabel and are part of experiences that can be experienced by all of us. Feel free to read and travel in them. Thanks for commenting and visiting my space.

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  2. pepezinhaaa disse:

    “Muitas vezes não entendo para que tanta pressa,
    Perderam a educação, fazem tudo errado e vivem em eterna desunião,”

    Tão verdade. A vida “obriga-nos” tantas vezes a isso. Não temos muita escolha… Tantos horários para tudo e para mais alguma coisa, tão limitados em tempo…é fácil perder a cabeça…
    Felizmente temos a natureza para poder ”conversar”, relaxar e aliviar o nosso stress. 😀
    Beijocas*

    Curtido por 1 pessoa

    • KAMBAMI disse:

      Que bom que gostaste, achei que mesmo sem folha a sombra dessa velha árvore acolheria-a-te bem e lhe faria compreender o quão rápido e sem sentido as pessoas passam, muitas vezes não sentindo nem cheiro, nem gosto dos frutos que a vida nos oferta. Essa obrigatoriedade a qual se refere é o que tento em palavras desmotivar, fazer com que paremos essa corrida e nos permitamos o relaxar. Obrigado pelo belo comentário que só veio a somar. Abraços e beijocas também desse lado de cá! 😉

      Curtido por 1 pessoa

      • pepezinhaaa disse:

        Passamos muitas vezes assim, demasiado rápido. E perdemos a oportunidade de ver e apreciar tantas coisas. E só nos faz bem estarmos perdidos por aí sem pensar em nada… Não há coisa melhor do que nos perdermos pela natureza, sem preocupações.
        Se há lugar que me transmite essa sensação é quando vou para a praia à noite, naqueles dias muito estrelados (e de preferência quase lua cheia) e me deito e fico a contemplar a beleza do céu. 😀

        Eu penso seriamente, quando olho para o que será o meu futuro, que não quero perder a vida a trabalhar…e preocupada com o trabalho…prefiro ter um ordenado mais baixo, mas ter flexibilidade para estar com a família, amigos, sair, passear, tirar fotografias…

        Beijocas e um abracinho :D*

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