A ÁGUIA E A GALINHA


 
 
 

A ÁGUIA E A GALINHA

Leonardo Boff

 

Uma metáfora da condição humana

 

 

Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N’Krumah. Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica* dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.

James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:

."Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

– Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.

– De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

– Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

-Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe !

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou… voou.. até confundir-se com o azul do firmamento… "

E Aggrey terminou conclamando:

– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

 

 

 Obs: Leonardo Boff foi sempre professor de teologia, de filosofia, de espiritualidade e de ecologia. Trabalhou mais de vinte anos em Petrópolis, com um pé na academia e outro nos meios pobres. Dessa combinação nasceu a teologia da libertação que ele, junto com outros, ajudou a formular. Sempre se deixou iluminar por S. Francisco e Santa Clara, os paradigmas de uma nova humanidade tema e fraterna. Assessora comunidades de base, dá cursos em universidades brasileiras e estrangeiras e escreve com assiduidade. Dos seus mais de sessenta livros destacam-se pela Editora Vozes, onde coordenou o editorial religioso por muitos anos: Jesus Cristo Libertador; Como fazer teologia da libertação; O rosto materno de Deus; Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos; A Santíssima Trindade é a melhor comunidade; Despertar da águia; Saber cuidar. Publicou também pela Ática de São Paulo: Nova era; a civilização planetária; Ecologia: grito da urra, grito dos pobres. Pela Record: Brasa sob cinzas, estórias do anti-cotidiano. É professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.  

 

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Sobre KAMBAMI

Quode natura date, nemo negare potere.
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Uma resposta para A ÁGUIA E A GALINHA

  1. Geni disse:

    Olá meu amigo Claudio,Prazer chegar aqui no seu espaço, que confesso não conhecia!Li este livro a alguns anos atrás e gostei imensamente, preciso relê-lo.Acho muito boma conckusão da estória. Gosto do Boff e lamento o que a Igreja Católica fez com ele: é assim que vamos perdendo grandes nomes ( e padres) e logo este que acho uma sumidade…mas, é assim! Parabéns pelo blogabçsGení Mafra

    Curtido por 1 pessoa

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